
(Leonid Afremov)
O teatro e o outono se encontram aqui em Curitiba, a cidade de artifício!

(Leonid Afremov)
O teatro e o outono se encontram aqui em Curitiba, a cidade de artifício!
Não é possível (ou melhor, não consigo) explicar a ansiedade fina, como uma ardência muito sutil, com que aguardo os primeiros dias de outono. Há toda uma série de clichês que o meu corpo aguarda expectante, e às quais responde com renovada alegria. A paisagem que já nasce antiga, porque as folhas estão no chão em cores desbotadas de intenções. Do vento frio e o céu de infância, misturado com o sol que aquece as paredes e os muros, misturados com o tempo roubado ao trabalho para não fazer nada senão as pequenas coisas inúteis que dão prazer… é verdade que durmo melhor no outono, e suspeito até que sou melhor pessoa. Aguardo já um pouco impaciente pelos perfumes quase a despontar e percebo subitamente que, talvez por causa deles, dos condicionamentos da poesia e da memória afetiva, só leio Fernando Pessoa uma vez por ano, e é na estação que está prestes a começar. Depois, mais lá para o fim, vem à cereja literal em cima do bolo: o reinado breve, mas poderoso, do inverno que anuncia seus preceitos de homem valente, chega pra fechar um ciclo, uma época para se amontoar em cavernas, de se espremer em paredes frias e derreter o frio delicado que recobre a geografia do que fomos nesses meses de febre.
E sobre os sonhos… todos nós não enlouquecemos quando dormimos? O que era o sono, afinal, senão o processo no qual jogamos nossa insanidade num buraco escuro do inconsciente e saímos do outro lado prontos para comer sucrilhos em vez dos filhos dos nossos vizinhos?
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